A investigação sobre a fumaça em Manaus exige observar mais do que o total de queimadas registrado no Amazonas. Um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas mostra que o Estado teve queda de 26,9% nos focos de calor entre agosto e setembro de 2026, na comparação com o mesmo período de 2023. A redução, porém, ocorreu ao mesmo tempo em que municípios próximos da capital registraram aumento.
O estudo também cruzou a distribuição dos focos com mapas meteorológicos. Parte dos traços de vento observados apresenta orientação compatível com possíveis corredores de transporte de ar do setor leste para a região de Manaus. O material indica uma hipótese de contribuição para episódios de fumaça, mas não confirma a origem das partículas nem a trajetória efetivamente percorrida por elas.
Queda estadual reuniu comportamentos diferentes
Os dados utilizados pela NEX foram obtidos no Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), com informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento contabilizou 65.610 focos de calor no Amazonas em agosto e setembro de 2026, contra 89.758 no mesmo intervalo de 2023.
A diferença foi de 24.148 detecções a menos no bimestre. O resultado estadual, no entanto, não se repetiu de maneira uniforme entre os municípios. Dos 62 municípios amazonenses, 16 apresentaram crescimento no período analisado.
Entre as localidades com alta estão Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri. Na região intermediária de Manaus, classificação territorial do IBGE que cobre uma área mais ampla do que o entorno imediato da capital, o total passou de 18.231 para 18.980 focos, alta de 4,1%.
Na região intermediária de Parintins, o número subiu de 10.290 para 10.686 detecções, aumento de 3,8%. Os dados mostram que a queda observada no conjunto do Amazonas conviveu com avanços em áreas distintas do território.
Municípios próximos de Manaus tiveram altas expressivas
Manacapuru apresentou o maior acréscimo absoluto entre os municípios analisados. Foram 2.730 focos entre agosto e setembro de 2026, ante 1.230 em 2023. O aumento foi de 1.500 detecções, ou 122%.
Iranduba teve a maior variação percentual do levantamento: passou de 192 para 657 focos, alta de 242,2%. Em Caapiranga, os registros aumentaram de 946 para 2.248, crescimento de 137,6%.
Também houve avanço em localidades consideradas relevantes para a avaliação de possíveis contribuições à fumaça na capital. Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, alta de 14,7%. Careiro subiu de 1.236 para 1.442, aumento de 16,7%, enquanto Manaquiri avançou de 1.247 para 1.328, crescimento de 6,5%.
Rio Preto da Eva teve alta de 35,7%, de 241 para 327 focos. Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282, aumento de 29,2%. Borba registrou crescimento de 1.550 para 1.771 detecções, ou 14,3%.
Urucurituba teve uma das maiores variações do conjunto, passando de 457 para 1.192 focos, alta de 160,8%. A própria Manaus também registrou aumento, de 490 para 557 detecções, crescimento de 13,7%.
Setor leste aparece como área de acompanhamento
A análise dos mapas do Windy acrescentou ao levantamento uma dimensão relacionada à circulação atmosférica. Nas imagens examinadas, os traços de vento no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus apresentam orientação aproximada de leste-nordeste para oeste-sudoeste.
Esse alinhamento é compatível com uma circulação de ar do setor leste em direção à região da capital. Se as partículas estivessem se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, a fumaça produzida por queimadas ao longo desse corredor poderia avançar em direção a Manaus.
Itacoatiara ganha relevância nesse cruzamento porque está a leste da capital e apresentou 252 focos adicionais no bimestre de 2026. Outros municípios do setor também tiveram crescimento. Urucurituba aumentou os registros em 160,8%, enquanto Boa Vista do Ramos passou de 690 para 1.022 focos, alta de 48,1%.
Esses resultados apontam áreas que podem ser acompanhadas em uma investigação sobre a origem da fumaça. Eles não comprovam, por si só, que as partículas emitidas nesses municípios tenham alcançado Manaus. A confirmação dependeria do sentido efetivo dos ventos e da trajetória das plumas no período das ocorrências.
Setor sudeste depende da configuração do fluxo
Os mapas também mostram traços com orientação diagonal na área entre Borba e Itacoatiara. Caso o deslocamento ocorra do sudeste para noroeste, o fluxo poderá favorecer a aproximação de ar vindo de áreas situadas a sudeste de Manaus.
Borba registrou aumento de 1.550 para 1.771 focos. Em Nova Olinda do Norte, os registros passaram de 992 para 1.282. Por causa da posição geográfica e da alta no período, os dois municípios entram no acompanhamento dessa possibilidade.
Autazes e Careiro da Várzea, também considerados na análise do setor sudeste, tiveram redução. Autazes caiu de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Careiro da Várzea passou de 1.603 para 1.428, baixa de 10,9%.
A diminuição não elimina uma possível contribuição dessas áreas. Os dois municípios mantiveram quantidade relevante de registros, e o transporte da fumaça depende das condições atmosféricas existentes no momento das queimadas.
Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal no levantamento de 2026: 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.
Altas a oeste exigem outra direção de vento
O crescimento observado em Iranduba, Manacapuru e Caapiranga precisa ser interpretado de acordo com a localização desses municípios. Eles estão em setores a oeste e sudoeste de Manaus.
Para que a fumaça dessas áreas alcance a capital, seria necessário haver circulação proveniente desses setores ou trajetórias atmosféricas capazes de conduzir as partículas até a cidade. O alinhamento identificado no corredor leste não explica, sozinho, uma eventual contribuição das queimadas localizadas a oeste e sudoeste.
Essa diferença separa duas etapas da análise. Os dados de satélite indicam onde os focos cresceram ou diminuíram. Os mapas meteorológicos ajudam a avaliar em quais condições o ar e as partículas poderiam se deslocar até Manaus.
Padrão histórico registra ventos de leste e nordeste
Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.
Na meteorologia, a direção do vento indica de onde ele vem. Um vento de leste, portanto, sopra do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna plausível acompanhar municípios localizados a leste e nordeste da capital como possíveis áreas de contribuição.
A circulação, contudo, não permanece constante. Chuvas, variações regionais e influências locais podem alterar o fluxo. O estudo também menciona a possível interferência de brisas fluviais e as diferenças entre ventos próximos da superfície e aqueles observados em níveis mais elevados.
Imagens estáticas não confirmam a rota da fumaça
As imagens do Windy analisadas no levantamento exigem uma leitura específica. Uma delas está na camada de temperatura; a outra mostra a acumulação de vento. As cores exibidas, portanto, não representam concentração de fumaça ou qualidade do ar.
Na segunda imagem, o indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, corresponde ao ponto e à camada selecionados. O valor não deve ser interpretado como a velocidade atual do vento em Manaus.
Os traços brancos permitem observar o alinhamento do fluxo, mas uma captura estática não revela com segurança para qual direção as partículas estão se deslocando. As imagens também não apresentam de forma legível a data, o horário e a configuração completa da previsão.
Outro limite é a ausência de comprovação de que o fluxo retratado corresponda às condições meteorológicas existentes durante os incêndios registrados em agosto e setembro. Por isso, o material sustenta uma hipótese de transporte, principalmente pelo setor leste e, em determinadas condições, pelo sudeste.
A identificação dos municípios que contribuíram para cada episódio exigiria combinar o local e o horário das detecções com imagens das plumas e trajetórias do ar em diferentes altitudes.
Redução foi influenciada por municípios do sul
A queda do total estadual foi puxada por recuos expressivos em municípios que concentravam muitos registros em 2023. Lábrea passou de 10.486 para 4.094 focos, redução de 61%. Em Humaitá, a queda foi de 71,2%, de 5.314 para 1.530 detecções.
Canutama caiu de 3.644 para 1.013 focos, recuo de 72,2%. Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107, baixa de 58,5%. Também houve reduções em Novo Aripuanã, de 23,7%, Manicoré, de 46,6%, e Tapauá, de 68,9%.
Apuí seguiu caminho diferente e teve o maior total estadual no bimestre de 2026. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, aumento de 6,7%.
Comparação considera apenas agosto e setembro
A comparação feita pela NEX considera agosto e setembro de 2023 e os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede a comparação entre trimestres completos.
Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos e levou o total de agosto a outubro para 121.540 detecções. O mês respondeu por aproximadamente 26,1% do trimestre.
O levantamento contextualiza 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação, no entanto, mede a variação das detecções e não determina isoladamente a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.
Foco de calor não mede sozinho a fumaça
A metodologia utilizada soma detecções por satélite organizadas por município e exportadas do Painel do Fogo do SIPAM. As informações territoriais do IBGE foram usadas para calcular a densidade por 1.000 quilômetros quadrados.
Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. Uma mesma ocorrência pode gerar múltiplas detecções, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.
Assim, a combinação entre os dados da NEX e os mapas meteorológicos indica que o aumento de focos em parte do entorno e do setor leste de Manaus pode contribuir para episódios de fumaça quando a circulação atmosférica favorece o transporte até a capital, mesmo com a redução do total estadual.









